8 de outubro de 2010 - Fotos de Jornal Panorama Regional e arquivo pessoal

Especial da edição 413 - Idosos acima dos 90 anos

Veranópolis é celeiro da longevidade com qualidade de vida

Veranópolis, a Terra da Longevidade, é reconhecida hoje nacional e internacionalmente pela longevidade dos seus habitantes e, principalmente, pela qualidade de vida dos seus idosos. Hoje, talvez a melhor denominação para Veranópolis seja 'a Terra da Longevidade com Qualidade de Vida'! Porque o que o mundo busca hoje não é somente viver bastante, mas principalmente viver bem, com qualidade de vida.

E, dentro deste contexto, porque falar em nonagenários - acima de 90 anos? Porque aqui na Terra da Longevidade já não é mais manchete falar de octogenários - acima de 80, mas falar daqueles com mais de 90 anos com qualidade de vida faz manchete, mesmo nesta terra a onde as pessoas vivem mais e melhor. Desde 1994, vimos aprendendo com as pessoas acima de 80 anos - hoje, a maioria deles está com mais de 90 anos, com excelente qualidade de vida - o que é importante fazer para se poder viver mais e melhor. E aqueles que estão com mais de 90 anos comprovam o que temos aprendido ao longo dos anos com os longevos de Veranópolis - para se viver mais de 90 anos e estar bem, precisa-se viver bem desde jovem.

O que é viver bem? Os nonagenários nos confirmam: viver, desde jovem, com hábitos saudáveis de vida, alimentação sóbria e saudável, com muitas verduras, legumes, frutas, carnes magras e frango caipira criado solto no quintal, polenta brostolada, massa e pão caseiros, pouco sal, regado a quantidades saudáveis de vinho feito em casa, com bastante atividade física, trabalho, e uma harmoniosa e excelente convívio familiar e social, juntamente com uma vida de fé que agüenta a qualquer dificuldade da vida. Vamos ver e ouvir o que os nossos nonagenários têm a nos ensinar a mais sobre os segredos desta Terra da Longevidade com qualidade de vida!
* Emilio Moriguchi, geriatra

Thereza Gazzola Dal Piva

Nascida em 14 de março de 1920, na Vila Maria, distrito de Guaporé. Reside em Veranópolis há oito anos, e sempre gostou de trabalhar com a terra, plantar verduras e temperos. Adora flores, em especial rosas. Gosta muito de fazer crochê, faz lindos trabalhos. "Mãe, tu és a rosa do nosso jardim. Obrigado por tudo o que tens feito por nós. Te amamos muito, um grande beijo do teus filhos".

Dionisio Pastore

Nasceu em 6 de maio de 1918 em Antonio Prado, casou-se com Inês Meneguzzi em 1938 e teve onze filhos, 20 netos e seis bisnetos. Trabalhou na agricultura, veio para Veranópolis em 1942 e sempre trabalhou na agricultura no moinho, até se aposentar com 68 anos. Aos 92 anos, encontra-se em perfeita saúde e lucidez, gosta de passear, de visitas, ver jogos de futebol na televisão - é torcedor do Internacional, e vive muito feliz pois viu o seu time ser bicampeão da Libertadores.

Emilia Ceppo Piccoli

Nasceu em 17 de novembro de 1917, na capela de Nossa Senhora da Saúde, Zona Piccoli. Casou-se com Armindo Vitório Piccoli, natural da mesma comunidade, e desta união tiveram nove filhos, 20 netos e onze bisnetos. Trabalhou durante muitos anos na roça. Foi doméstica da escola estadual Herminia Liberali Piccoli e mais tarde mudou-se para a cidade de Veranópolis, onde concluiu o tempo de serviço no colégio São Luiz Gonzaga, até se aposentar aos 65 anos. Hoje, aos 92 anos, ainda cuida com carinho das flores, da horta e das galinhas, que são seu xodó. Nas horas vagas faz crochê, às 18h acende uma vela, liga a TV para acompanhar o terço, e após rezar janta e faz crochê até as 22h, quando vai se deitar.

Maria Rosa dos Santos

No dia 5 de maio de 2010, Maria Rosa dos Santos completou 104 anos. Nasceu em Capão Bonito, localidade pertencente a Lagoa Vermelha, em 1906. A principal atividade de dona Maria foi ter sido costureira do Exército em Porto Alegre. Ela acompanhava as tropas militares nas viagens pelo Estado, onde tinha a incumbência de cuidar das roupas de dezenas de pessoas. Também passou por Veranópolis, e aqui acabou conhecendo e namorando o agrônomo Felipe Nero Alves Macedo. Após alguns anos, veio definitivamente para Veranópolis, onde viveu com Felipe. Teve com ele dois filhos, cinco netos, cinco bisnetos e dois tataranetos.

Sergina Amábile Toson Faccin

"Nasci em 20 de novembro de 1914; em Lageadinho. Sou a terceira de 13 irmãos, filha de Querino Toson e Arpalice Faé Toson. Morávamos em uma casa grande de fronte à Igreja de Lageadinho. Éramos 27 pessoas sob o mesmo teto. Meus avós, pais, um casal de tios e seus filhos. Fomos muito felizes. Meus primeiros anos de escolaridade fiz em Lageadinho. Aos 13 anos fui para Porto Alegre, em casa de dona Irene, irmã de dona Idalina Bernardi, para cuidar do menino Otavio. Para que eu não ficasse sem escolaridade, dona Irene arranjou-me uma professora particular, comum na época. Aos 15 anos passei a cuidar dos filhos de dona Helena e Saul Farina - Raul, Paulo, Osvaldo e Berenice. Hermes e eu fomos padrinhos de ordenação sacerdotal de Raul. Voltando a Veranópolis com dona Helena, pela manhã cuidava das crianças e à tarde estudava com as professoras Maurícia Zanchetta e Lúcia Peixoto, e tornei-me professora municipal, lecionando em Lageadinho. Guardo carinhosa lembrança dos aperfeiçoamentos de professora municipal feitos com o professor Silva, pois foi nesta época que conheci Hermes, meu marido, que também era professor e participava dos mesmos cursos que eu. Professor Silva era muito exigente e cuidava muito como conversávamos e escrevíamos. Lembro-me sempre dele quando ouço pessoas com faculdade e empregando pronomes e letras erroneamente.

Fui professora municipal por oito anos em Lageadinho e ainda hoje orgulho-me de meus alunos, principalmente de Rui, José e Rubens Baron, que saindo de minha escola foram aprovados no curso de admissão ao ginásio no colégio Rosário, em Porto Alegre. Aprendi muito também com meus amigos dona Helena e Saul, que aconselhavam-me em todos os sentidos, até em meu relacionamento com Hermes, então meu namorado. Apesar de meus pais serem agricultores e terem uma família muito numerosa, sempre tivemos uma alimentação muito farta, sadia e variada. Tínhamos leite, ovos, queijo, legumes, frutas em quantidade, tudo produzido pela família. Ainda sinto o cheirinho das maravilhosas fornadas de pães e cucas que minha mãe e tia faziam no forno à lenha. Sempre fui um bom garfo. Não é fácil me contentar à mesa. Minhas amigas do Clube de Mães e Mães de Nain dizem que sou exigente demais - costumo às refeições tomar um copinho de vinho. Casei aos 23 anos com Hermes Faccin, tive quatro filhos, nove netos e cinco bisnetos. Morei no inicio com meus sogros. O berço de minha filha mais velha foi um cesto de padaria, pois meus sogros eram padeiros.

Ao criarem as rodoviárias, foi-me oferecida a concessão de Veranópolis, permanecendo ainda hoje, aos 96 anos de idade, como concessionária. Sou dona de um gênio nada fácil, sou altiva, dominadora, sempre soube o que quis. Por isso mesmo, nunca fraquejei diante dos revezes da vida, enfrentando tudo com muita força, coragem, determinação e muita fé. Meu menino Jesus e minha Nossa Senhora que me acompanham pela vida toda é que me deram força para superar os momentos difíceis por que passei - perdi meu Hermes e meu Caco, filho menor, com 51 anos. Não foi fácil. Só Nossa Senhora sabe me entender, pois ela também perdeu o filho como eu, como foi triste e doloroso.
Tive muitos momentos felizes com Hermes e meus filhos. Viajei um pouco com Hermes quando os filhos cresceram e a vida folgou um pouco. Trabalhei muito, economizei bastante, mas nunca deixei que meus filhos passassem necessidades. Conheci alguns lugares maravilhosos. A religiosidade, a fé, a crença em um pai maior é que nos dá alento e nos faz viver. Alguns anos após perder meu Hermes, vim morar aqui em minha casa na rua doutor José Montaury. Morei muito tempo sozinha cuidando de minha refeição e minha casa, pois sempre fui muito independente.

Dizem que estou beirando os 96 anos. Eu penso e não acredito. Meu corpo pode ter esta idade, mas não minha cabeça. Crio que cheguei a esta idade pois sempre me alimentei muito bem, sempre trabalhei muito e honestamente. Sou muito religiosa. A fé em algo maior nos dá alento, tenho muita alegria em viver. Procuro afastar pensamentos tristes. Noticias tristes? Não quero saber, longe de mim. Disse-me um amigo, 'Sergina, te assemelhas a um carvalho, forte, altivo, dominador e longevo'. Meu passatempo predileto, agora, é ver, da frente de minha casa, passaren meus amigos, conhecidos e principalmente as crianças. Distraio-me conversando com todos. O carinho, o amor que dispensamos e recebemos nos trazem alento e fazem bem. A vida é isto!", finaliza.

Irmã Filomena Fin

Irmã Rosa Mattuella

João Cesca

Casal Florian

Aneta

Angela

Helena

Irmão Herbert

José

Leondina

Mercedes

Olympia Pessin

Ricene

Comendador Elias Ruas Amantino

Irmão Silvino

Venerindo

Estudos comprovam lonvegidade e qualidade de vida em Veranópolis

Os estudos iniciaram após uma reportagem publicada na revista Geográfica Universal, em maio de 1981. A matéria, assinada por Herculano Gomes Mathias, com médicos e sociólogos de diversas nacionalidades, dedicados ao estudo da Gerontologia, citavam Veranópolis entre os locais mundiais considerados como favoráveis ao prolongamento da vida humana. "No Estado do Rio Grande do Sul, existe uma localidade denominada Veranópolis, no meio de montanhas, onde vive apreciável número de velhinhos, em sua quase totalidade descendentes de colonos italianos", relatava o texto.
Atraídos pela informação, Elizabete Michelon e Emilio Moriguchi, do setor de Geriatria da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, iniciaram em 1994 uma série de pesquisas com os idosos com 80 anos ou mais, apoiadas pela Administração Municipal, através da Secretaria da Saúde e Assistência Social.

Desde 1994, os estudos sobre o envelhecimento e qualidade de vida, coordenados por Moriguchi em Veranópolis, não pararam mais. Já são mais de 30 trabalhos científicos entre mestrado e doutorado, realizados para comprovar as hipóteses sobre a longevidade com qualidade de vida. O conjunto geral dos resultados obtidos até o momento em Veranópolis está associado tanto à manutenção da saúde cardiovascular quanto a um envelhecimento 'bem sucedido'. A cidade está localizada na Serra, com natureza e trabalho rural, que mostram que populações que vivem em maior altitude e se relacionam com o campo e a terra tendem a ter uma maior longevidade e/ou um envelhecimento bem sucedido - com poucas doenças ou com forma mais leve de doenças que acometem as pessoas idosas. Desde o inicio do Projeto Veranópolis, ficou evidente a importância que a comunidade italiana dá à pessoa idosa. O idoso, nesta comunidade, é respeitado e ouvido. A experiência destas pessoas ainda é, incontestavelmente, considerada e respeitada pelos grupos mais jovens. Tal condição, por si só, já significa uma diminuição nos riscos de saúde associados ao envelhecimento.

Na última reavaliação dos idosos longevos; a geriatra Maria Helena Werle salientou como é notável o amor e a dedicação das famílias de Veranópolis aos seus idosos, o que certamente contribui para a longevidade saudável. Além disso, o orgulho que os familiares manifestam ao falar de seus tão queridos avôs, avós, bisavôs, bisavós e, até mesmo, trisavôs e trisavôs chama a atenção de todos e transmite às futuras gerações um exemplo de cuidado e respeito ao idoso. De acordo com as pesquisas, não foram encontrados efeitos genéticos que podem estar aumentando a longevidade com qualidade de vida. As causas podem ser devido a fatores do ambiente, como baixo nível de estresse, atividade física intensa - longas caminhadas, trabalho ligado à agricultura. Dados mostram que o número de fumantes é menor do que cidades maiores, como Porto Alegre, e os habitantes costumam fazer refeições regulares, garantindo uma nutrição saudável. Estudos feitos por psiquiatras, psicólogos e biólogos mostram que a população possui um alto grau de satisfação com a vida, sendo muito alegre e ativa, e os idosos de Veranópolis participam ativamente das atividades da comunidade, o que afeta a longevidade, já que estão inseridos no contexto social. As investigações nutricionais mostraram que os idosos ingerem em média as quantidades de carboidrato, proteínas e gorduras que são indicadas pela Organização Mundial da Saúde, e em média o consumo alcoólico é moderado e inclui principalmente a ingestão de vinho tinto. Estudos mostram que o vinho tinto contém substâncias antioxidantes, que protegem o organismo contra a ação dos radicais livres, com efeitos positivos na proteção do risco cardiovascular a partir da ingestão de frutas e verduras bem diversificadas.

Através de outros projetos, como o estudo de acompanhamento com adolescentes desde 1999 e o projeto de prevenção e promoção de saúde, passam-se as lições dos longevos, da importância de hábitos saudáveis para envelhecer bem; com qualidade de vida.
* Neide Maria Bruscato, nutricionista MSc coordenadora operacional dos Estudos da Longevidade e do Gentro de Geriatria e Gerontologia do HCSPL, AVAES - Associação Veranense de Assistência em Saúde

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